Pesquisador da Fiocruz apresentou em evento científico os resultados da tecnologia que já protege 5 milhões de pessoas no país.
Niterói foi destacada como referência nacional no enfrentamento às arboviroses, utilizando o método Wolbachia, durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), nesta sexta-feira (31). A experiência da cidade foi apresentada pelo pesquisador Luciano Andrade Moreira, da Fiocruz.
Conforme informou o pesquisador, Niterói é uma das cidades pioneiras e mais bem-sucedidas na aplicação dessa tecnologia no Brasil. O projeto teve início em 2015, no bairro de Jurujuba, e alcançou 100% de cobertura do município em 2023.
Atualmente, o método está presente em 16 cidades brasileiras, protegendo cerca de 5 milhões de pessoas. Em escala global, a tecnologia já é empregada em 15 países, beneficiando mais de 16 milhões de indivíduos.
Luciano Moreira enfatizou que o sucesso da iniciativa se deve à união entre ciência, monitoramento constante e a participação ativa da população. Ele ressaltou que a experiência niteroiense gerou evidências científicas publicadas, comprovando a sustentabilidade da tecnologia em campo.
“Niterói é uma cidade muito importante para o desenvolvimento do método Wolbachia no Brasil. Foram oito anos de trabalho para cobrir todo o município, com muito aprendizado junto às equipes locais”, afirmou o pesquisador.
Ele complementou que “hoje, sabemos que a Wolbachia continua estabelecida mesmo após o fim das liberações, bloqueando os vírus e protegendo a população. O que construímos nesses 10 anos foi uma tecnologia que saiu da pesquisa científica e passou a ser uma ferramenta de saúde pública”.
A Wolbachia é uma bactéria que existe naturalmente em diversas espécies de insetos, mas não no mosquito Aedes aegypti. Ao ser introduzida nesse mosquito, ela diminui sua capacidade de transmitir vírus como dengue, zika, chikungunya e febre amarela.
A tecnologia é considerada autossustentável porque, uma vez estabelecida na população de mosquitos, a bactéria é transmitida naturalmente pelas fêmeas para seus descendentes, mantendo a proteção ao longo do tempo.
Para a diretora geral da Fundação Estatal de Saúde de Niterói, Maria Célia Vasconcellos, a importância do método transcende os indicadores, representando uma mudança na rotina da cidade. “Eu mesma tive os quatro sorotipos da doença, sou uma sobrevivente constatada disso. Então, falo não só como gestora, mas como alguém que conhece na pele o impacto dessa doença”, declarou.
Maria Célia acrescentou que “o método Wolbachia trouxe uma tranquilidade muito grande para a cidade e mostrou que o grande segredo foi unir ciência, serviço público e participação da comunidade. Essa experiência precisa se espalhar pelo Brasil e pelo mundo”.
O pesquisador Luciano Moreira também apresentou dados científicos que comprovam o impacto da tecnologia. Estudos feitos no Brasil e no exterior indicam reduções significativas nos casos de dengue.
Em Niterói, uma pesquisa divulgada após a cobertura total do município identificou uma redução de 89% nos casos da doença, após a implantação do método em todo o território.
Além dos resultados epidemiológicos, Luciano Moreira destacou o papel fundamental do engajamento comunitário. Antes de iniciar as liberações dos mosquitos com Wolbachia, a Prefeitura de Niterói realizou ações de informação e diálogo com moradores, escolas e lideranças locais.
Esse trabalho resultou em uma aprovação de 92% da comunidade para a liberação dos mosquitos, demonstrando a confiança e o apoio popular à iniciativa.
O coordenador do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Niterói, Francisco de Faria Neto, sublinhou a contribuição das equipes de campo e da comunidade. “Foi um grande desafio, porque a proposta era combater uma doença soltando mosquitos, em vez de eliminar mosquitos”, explicou.
Ele completou: “Por isso, o trabalho de mobilização e esclarecimento junto às comunidades foi fundamental, com a participação dos agentes comunitários de saúde, agentes de combate às endemias e agentes de controle de zoonoses. Ao longo dos anos, Niterói foi ampliando a cobertura do método até alcançar todo o município”.
Durante sua palestra, Luciano Moreira também abordou a nova fase de expansão nacional do método Wolbachia. Após uma década de pesquisas e acompanhamento, a tecnologia foi incorporada às estratégias nacionais de prevenção e controle das arboviroses pelo Ministério da Saúde.
A tecnologia será ampliada para novas localidades, com previsão de implantação em mais 16 municípios na próxima etapa e, posteriormente, expansão para dezenas de outras cidades brasileiras.
A expectativa é que, com a produção em larga escala de mosquitos com Wolbachia, o Brasil consiga proteger uma parcela significativamente maior da população nos próximos anos, consolidando uma estratégia baseada em ciência e inovação.